Gui Couto publicou em 13 de abril de 2009 às 12:30

Para inaugurar este espaço vou levantar um tema que é latente na sociedade brasileira. Todos discutem, falam, usam a palavra design só que a maioria das pessoas não tem a menor idéia do que esta palavra representa.
Outro dia estava no salão de beleza esperando minha mulher terminar de fazer as unhas - sim, sou um marido presente - quando ouço a recepcionista chamar uma “designer de sobrancelhas”.
No início eu pensei que havia escutado errado, mas, para o meu espanto, ela repetiu. E, eu fiquei pensando aqui com os meus botões: “Será que ela sabe o que é um designer?”
A palavra design vem de designo, ou seja, designar. O que o designer faz é designar, criar função. Muita gente acha que o designer faz desenhos, mas a sua real atividade é resolver problemas.
Quando a profissão, nos idos dos anos 60, foi instaurada no Brasil, não havia no português uma palavra que conseguisse abranger todas as vertentes que são atingidas pelo design. Como o designer se utiliza principalmente do desenho para expor e desenvolver as suas idéias (afinal de contas “uma imagem vale mais que mil palavras”) criaram o Desenhista Industrial. Pronto, começou o calvário do coitado do designer.
Quando entrei na faculdade, sempre era indagado sobre o que eu fazia. Afinal de contas, um desenhista industrial faz... desenhos de galpões para indústrias, certo? E além de terem sua lógica dissolvida, ficavam mais confusos quando eu tentava explicar. Quando descobriam que o “desenhista industrial” é o malfadado designer, achavam que eu era um desenhista metido a besta ou quem sabe um estilista.
Vamos pegar como exemplo uma revista. O designer não escreve as matérias, ele não imprime a revista, muitas vezes ele não tira nem as fotos da revista. Então que diabos o designer faz? Simples, ele cria a diagramação da revista, organiza as matérias e confere à publicação um padrão visual. Ele se preocupa com a legibilidade, os contrastes, os posicionamentos das imagens e dos textos, além do posicionamento dos elementos. Logo, ele organiza todos os elementos para criar o produto final. Ele dá uma função ao emaranhado de informações que formam uma publicação.
Pegando este pequeno exemplo, podemos entender realmente o sentido do trabalho do designer. Ele cria a função dos produtos. Sejam eles problemas ergonômicos ou simplesmente estéticos. Esta é a nossa função.
No final dos anos 80 e início dos anos 90, a palavra ganhou a conotação de sofisticação. Logo, o designer foi alavancado ao nível de um “artista”. Infelizmente, ou felizmente, o designer não é nada disso. Sua criação não visa à abstração e muito menos a segregação. O design tem como pilar fundamental a massificação, logo não se encontra no meio das artes plásticas e sim das artes aplicadas. Nada pode ser feito porque é “bonitinho”. Tudo tem que ter um objetivo, uma função.
Com a elevação do status da expressão, o total desconhecimento do que a mesma significa e a idéia de que ao usar termos estrangeiros é sinal de qualidade, todos “viraram” designers. Quem aprende a usar o Photoshop “vira” designer, o antigo boleiro agora é “cake designer” e a depiladora virou “designer de sobrancelhas” e corroem o nome de uma profissão complexa e difícil.
Gui Couto
Designer